OPERAÇÃO CARTOLA: Campinense e Botafogo tentaram subornar o mesmo árbitro na final do Paraibano

Por - 15 de maio de 2018 - 14:04

OPERAÇÃO CARTOLA: Campinense e Botafogo tentaram subornar o mesmo árbitro na final do Paraibano

O então presidente da Comissão Estadual de Arbitragem de Futebol da Paraíba (Ceaf-PB) – que caiu do cargo após os desdobramentos da Operação Cartola -, José Renato, bem que tentou garantir que a arbitragem da grande final do Campeonato Paraibano de 2018 fosse da Paraíba. Mas não conseguiu. Os clubes finalistas, Botafogo-PB e Campinense, preferiram pôr em prática o intercâmbio de árbitros entre federações nordestinas e pediram à Ceaf-PB arbitragem de fora. Parecia que queriam dar mais lisura aos derradeiros jogos da competição. Mas só parecia. A vinda de um forasteiro não intimidou dirigentes de Belo e Raposa, que tentaram negociar com o árbitro alagoano Francisco Carlos do Nascimento, o Chicão, favorecimento aos clubes no duelo de ida, em Campina Grande.

GloboEsporte.com teve acesso a algumas das interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Civil e aos relatórios da investigação e ficou constatado que o presidente do Campinense, William Simões, e o vice-presidente de futebol do Botafogo-PB, Breno Morais, foram atrás do árbitro alagoano para oferecer propina.

Em uma dessas escutas, datada do dia 3 de abril, dois dias antes do primeiro jogo da final entre Campinense e Botafogo-PB, em Campina Grande, no Amigão, Breno Morais conversa com José Renato sobre as escalas de arbitragem das partidas da final. O presidente da Ceaf-PB informa quais são os árbitros que vão para o sorteio, destacando que Chicão apitará um jogo e Cláudio Francisco Lima e Silva, de Sergipe, ficará a cargo da outra final. Ambos do quadro nacional da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Breno então pede que o árbitro alagoano faça o jogo de volta, que seria em João Pessoa, no Almeidão, já que o Botafogo-PB decidiria o título em casa, em virtude de ter feito uma campanha melhor que a do rival ao longo do estadual. O mandatário da Ceaf-PB explica que não daria para fazer isso porque Cláudio iria apitar Atléitico-PR x São Paulo, pela Copa do Brasil, um dia antes da partida de ida do Paraibano. Ou seja, seria cansativo para o árbitro sergipano ficar a cargo da primeira final.

No sorteio, horas depois do diálogo entre os dirigentes, na sala de reuniões da Federação Paraibana de Futebol (FPF), na capital, Chicão foi designado para o jogo de ida, no Estádio Amigão, enquanto que Cláudio Francisco Lima e Silva foi “sorteado” para o confronto do Almeidão.

A partir daí, as articulações de bastidores começaram numa ponte que envolvia João Pessoa, Campina Grande e Maceió. No mesmo dia, Breno Morais acionou um dos seus contatos no meio do futebol em Alagoas, identificado pela polícia como Alex. Interceptações telefônicas registraram o diálogo em que o dirigente do Belo pede para que seu interlocutor consiga acertar com Chicão uma ajuda para o time na partida. Breno, inclusive, lembra a Alex que Chicão supostamente não teria ajudado em uma outra partida de interesse do Belo, em Natal.

Breno Morais já prestou depoimento na Delegacia de Defraudações e Falsificações e se reservou ao direito de ficar em silêncio.

Trecho de um dos relatórios da Polícia Civil (Foto: Reprodução / GloboEsporte.com)

Sem qualquer toque na bola, o Clássico Emoção já estava a todo vapor fora das quatro linhas. O protagonismo não era dos atletas, mas dos dirigentes dos dois clubes. A linha utilizada para este duelo era a telefônica. E o emaranhado deste novelo antidesportivo foi descoberto pela Operação Cartola. Se o Botafogo-PB estava tentando garantir um placar favorável na partida de ida da decisão, o Campinense também botou o seu time em campo nesse sentido.

 Também no dia 3 de abril, em conversas gravadas pela polícia, o presidente da Raposa, William Simões, é flagrado também querendo entrar em contato com o árbitro alagoano. O presidente raposeiro entra em contato com Danilo Corisco – massagista da FPF que é apontado por alguns denunciantes como interlocutor de Treze e Campinense na abordagem com árbitros -, avisando que Chicão foi sorteado para o jogo de ida da final, como o próprio Simões havia pedido para a Ceaf-PB.
De acordo com a assessoria de comunicação do Campinense, o presidente William Simões não vai se pronunciar no momento, pois o dirigente ainda não teve acesso aos autos do inquérito policial e ainda não foi chamado para depor. De acordo com o delegado da Polícia Civil, Lucas Sá, o dirigente deve ser intimado ainda nesta semana.

GloboEsporte.com entrou em contato com o árbitro alagoano Chicão para falar sobre os áudios e as constatações da investigação. Ele disse ter conhecimento das escutas e argumentou que não sabia que estava falando com o presidente do Campinense. Para ele, Danilo, que é da FPF, havia passado o telefone para alguém da Federação.

– Existe uma conduta que a Federação que recebe um árbitro de fora dá toda a assistência e paga o hotel. E Danilo é a pessoa que sempre nos dá assistência nesses casos. Eu já trabalhei muito na Paraíba, sempre venho aqui. Então eu achei que estava falando com alguém da FPF. Alguém que estava avisando sobre o hotel e desejando um bom jogo. Eu jamais falaria com o presidente do Campinense, se soubesse que era ele. De jeito nenhum. É muito triste essas coisas acontecerem com a gente. Mas a gente sabe que existem pessoas que vendem o árbitro e o árbitro sequer sabe disso. Acontece muito. Eu estou com a consciência tranquila – disse o árbitro.

Créditos: Globo Esporte PB

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